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HERIS, VILES E BOBOS

Quais eram as atitudes e valores fundamentais dos artesos e camponeses nos incios da Europa moderna? A questo  central para este livro, mas respond-la corresponde 
 parte mais ousada de todo o empreendimento, na medida em que envolve a tentativa de tornar explcito o que estava implcito nas diferentes formas da cultura popular. 
A abordagem adotada neste captulo se baseia no pressuposto de que os heris, viles e bobos de uma cultura formam um sistema e revelam os padres dessa cultura 
de trs maneiras respectivas: ultrapassando-os, ameaando-os e ficando aqum deles.1
Evidentemente,  muito arriscado, como j sugerimos (acima, p. 56 ss.), tratar a cultura popular desse perodo como se fosse monoltica. Mas os mesmos heris podiam 
ser encontrados em lugares muito diferentes da Europa. O culto aos santos era generalizado em 1500, e alguns santos sobreviveram em reas protestantes por muito 
tempo depois da Reforma. So Jorge, por exemplo, continuou a ser o padroeiro da Inglaterra e a principal figura nas peas de mascarados; nas reas luteranas da Alemanha, 
o culto de so Martinho se manteve, e mesmo na Repblica Holandesa, oficialmente calvinista, so Nicolau continuou a pr seus presentes nos sapatinhos das crianas. 
Os heris dos romances de cavalaria eram personagens quase to internacionais quanto os santos. O cavaleiro que na Inglaterra se conhece como "Bevis de Hampton" 
era um heri para os italianos com o nome de Buovo d' Antone, e se faz reconhecer em trajes russos como Bova Korolevitch. A estria de Pierre de Provena era conhecida 
no s na Frana, mas tambm em Portugal, Pases Baixos, Alemanha e Dinamarca. Os turcos se devotavam a Rolando, que dizia ser turco, e mesmo a so Jorge, que diziam 
ser um spahi, isto , um cavaleiro turco. pg. 173
A primeira parte desse captulo segyir o mtodo de biografias sobrepostas a fim de descrever algumas das figuras mais amadas, odiadas e desprezadas da cultura popular 
da poca; a segunda parte, mais especulativa, tentar interpretar as atitudes expressas nessas ou atravs dessas figuras.

 PROTTIPOS E  TRANSFORMAES
Visto que as estrias circulam com tanta freqncia de um heri popular para outro, talvez seja til discutir mais os tipos, e no tanto os indivduos. A Legenda 
dourada, assim como as baladas de Child, poderia ser estudada como um conjunto de estrias que so transformaes umas das outras. Existem quatro tipos de heris 
principais: o santo, o guerreiro, o governante e o fora-da-lei. Em muitos casos, no  difcil ver como personagens que chegaram mais tarde  tradio vinham modelados 
segundo prottipos anteriores. So Joo Batista, por exemplo, era o prottipo do asceta, vivendo no deserto, alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre, usando 
uma "roupa de plo de camelo" (Mateus 3, 1-4), e outros ascetas como santo Antnio Abade ou so Humphrey (que deixou crescer cabelo e barba excepcionalmente longos) 
parecem seguir seu modelo. Alexandre, o Grande, era o prottipo do governante vitorioso no exterior, assim como Salomo era o modelo do governante sbio internamente.3
Os prottipos podiam ser modificados para se adaptar a novas necessidades. O cavaleiro medieval, como veremos, transformava-se em general, hussardo ou at bandido. 
Os protestantes no acreditavam em santos, mas adotaram e adaptaram o mrtir, comeando j em 1523, quando Lutero escreveu uma balada em broadside sobre dois seguidores 
seus que tinham sido queimados em Bruxelas. O livro dos mrtires de Crespin celebrava o herosmo dos huguenotes, ao passo que o livro de Foxe, com ordens de ser 
colocado nas igrejas, tem um papel importante na formao da tradio protestante inglesa. Finalmente, a figura do mrtir se politizou, e homens to diferentes e 
to distanciados da concepo original desse esteretipo quanto o rei Gustavo Adolfo da Sucia e o dr. Henry Sacheverell foram apresentados segundo esse modelo.4 
Pg. 174

O governante
A imagem do governante requer uma apresentao extensa, pois decerto revelaria as atitudes populares em relao  autoridade. Uma imagem comum  a do conquistador. 
O governante muitas vezes  descrito com adjetivos como "vitorioso", "triunfante", "glorioso" ou "invencvel", e retratado como uma figura a cavalo aos moldes de 
Alexandre, liderando um exrcito contra o inimigo, principalmente o inimigo pago ou hertico: sarracenos (Carlos Magno, Ricardo I), mouros (Sebastio, de Portugal, 
heri apesar de sua derrota), turcos (Mtys, da Hungria), trtaros (Iv, o Terrvel, conquistador de Kazan e Astrakhan) ou papistas (Gustavo Adolfo, Guilherme III). 
Guilherme III era representado a cavalo, galopando nas estampas - ou nos frontes da  Irlanda do Norte , enquanto os versos de acompanhamento enfatizavam o tema 
da conquista e vitria.

Whilst conquering William with laurels is crowned
His fame and his name through the world shall go round.

The conquering sword does King William proclaim
And crown him with trophies of honour and fame.5

(Enquanto o conquistador Guilherme com louros  coroado / Sua fama e seu nome tero o mundo andado. / A espada conquistadora a Guilherme rei proclama / E coroa-o 
com trofus de honra e fama.)

Entre os heris conquistadores do sculo XVIII, destacam-se dois dirigentes. Um  Carlos XII, o "bravo e renomado" rei da Sucia, como o chama um livreto ingls. 
O cabo Gustav Reuter, numa pintura que retratava o rei a cavalo, ps a inscrio "deve-se lembrar Carolus, o melhor soldado do mundo". O outro conquistador de destaque 
 Frederico, o Grande, a quem as baladas alems em broadside apresentam em termos igualmente gloriosos:

Friederikus ist ein Held
Alizeit siegreich in dem Feld.
(Frederico  um heri / Sempre vitorioso em campo.)6

A segunda imagem corrente do governante mostra-o segundo os moldes de Salomo, o juiz sentado em seu trono, o pai do seu povo, descrito com adjetivos como "justo", 
"sbio" e "misericordioso". So Lus (Lus IX, da Frana) era uma figura popular desse gnero, tradicionalmente retratado a administrar justia sob um carvalho. 
Seu sucessor, Lus XII, parece ter adquirido reputao semelhante. Dizia-se que pg. 175 chorava quando tinha de cobrar impostos do povo. Um manifesto da revolta 
camponesa de 1639 na Normandia referia-se com nostalgia ao tempo "em que Lus XII dirigia uma era dourada" (alors que Louis XII menait un sicle d'or), e um dos 
cahiers do Terceiro Estado, em 1789, referia-se a Lus XIV como "herdeiro do cetro e das virtudes de Lus IX, Lus XII e Henrique IV". Em outros cahiers, ficamos 
sabendo que "o nome de Henrique IV  sempre conhecido no campo e sempre repetido com emoo", que se reconhecia sua subordinao a Deus e  lei, e que era visto 
como o pai do seu povo, sem nada ganhar com sua opresso.7 O imperador Maximiliano, em sua poca e posteriormente, era apresentado como um governante justo e clemente, 
que de bom grado ouvia os pedidos dos seus sditos. Na Hungria, a justia do rei Mtys era proverbial. Dizia o provrbio: Meghait Mtys kirly, oda az igazsg, 
ou, no latim humanista, Matthias obiit, justitia periit: "O rei Mtys morreu, a justia desapareceu". Na Noruega, durante todo o nosso perodo, so Olavo, o rei 
noruegus do sculo XI, continuou a ser um heri popular, e os camponeses resistiam s inovaes que no lhes agradavam em nome da "lei do rei Olavo".8
Uma estria recorrente sobre o governante  a que o mostra andando incgnito pelas diversas regies. Poderia ser chamado de topos "Harun al-Rachid", a partir das 
estrias sobre o califa de Bagd narradas nas Mil e uma noites. O Motif-Index (ver bibliografia) se refere a esse motivo como "rei disfarado para descobrir segredos 
de sditos" (IK. 1812), o que d uma impresso infeliz de espreita, enquanto geralmente apresenta-se o rei na tentativa de garantir o cumprimento da justia ou de 
partilhar a vida da gente simples. Existe uma srie de baladas inglesas construdas em torno desse motivo, relatando os encontros entre o rei Eduardo e o Curtidor 
(Child 273), o rei Henrique e o Moleiro, o rei Guilherme e o Couteiro ou o rei Ricardo e Robin Hood (Child 151). Um livreto popular do sculo XVII, The History of 
the King and the Cobbler ("A histria do rei e do remendo"), conta-nos que "o rei Henrique VIII tinha o costume de ir disfarado, tarde da noite, at o centro da 
cidade para ver como os guardas e vigias desempenhavam suas obrigaes". Na esccia, dizia-se que Jaime V costumava se disfarar de latoeiro ambulante, mendigo ou 
"o homem de Ballengight" (the gudeman of Ballengight). Na Rssia, circulavam estrias sobre como o Czar (s vezes especificado como Iv, o Terrvel, ou Pedro, o 
Grande) se juntava aos ladres: 

s vezes ele se juntava a eles disfarado, e uma vez props que assaltassem o errio pois (diz ele) conheo o caminho; mas um dos companheiros pg. 176 ergueu o 
punho e deu-lhe um vigoroso soco na cara, dizendo seu patife, voc se oferece para roubar Sua Majestade, que  to bom para ns; vamos  roubar um boiardo rico que 
fraudou Sua Majestade em enormes somas de dinheiro. Iv disso muito se agradou.9

A estria mais conhecida de todas sobre o governante como heri popular  aquela em que ele no est realmente morto. Est apenas dormindo, geralmente numa gruta, 
e um dia voltar para vencer seus inimigos, libertar seu povo da opresso, restaurar a justia e inaugurar a idade de ouro (Motif-Index A. 570, D. 1960.2). O prottipo 
evidente dessa estria  Cristo, e certamente  significativa a identificao entre o governante e Cristo em sua segunda vinda. A estria era muito difundida em 
nosso perodo, como o fora antes e continuaria a ser depois. Era atribuda particularmente ao imperador Frederico. Durante a Guerra Camponesa, depois da batalha 
de Frankenhausen, milhares de camponeses se reuniram no monte Kyffhaser, onde, segundo se dizia tradicionalmente, o imperador estaria dormindo, para l esperarem 
que ele se levantasse e vingasse o sangue inocente que acabava de ser derramado. A mesma estria era atribuda ao rei Arthur, "o rei passado e futuro", rex quondam 
rexque futurus, adormecido na "colina vazia". Atribua-se a Carlos Magno, ao "bom rei Wenceslau", da Bomia (svat Vclav), a Mtys, da Hungria, a Sebastio de 
Portugal. A variante russa da estria fazia um contraste entre o "czar dos boiardes", o czar do momento que oprimia o povo, e o "verdadeiro czar", que esperava o 
momento para sair do esconderijo.10
Como este ltimo exemplo deve ter deixado claro, o fato de que alguns governantes fossem heris populares no significava que todos o fossem, nem que os artesos 
e camponeses fossem cegos aos seus erros. O rei-heri no raro era contrastado com o rei do momento. Lus XII a Lus XIII, contra o qual os camponeses normandos 
se rebelaram em 1639, ou a "lei do rei Olavo" com as leis dos reis dinamarqueses que estavam governando a Noruega nos incios do perodo moderno.
Em todo caso, a imagem do tirano era bastante familiar, com bvios prottipos bblicos. Do Antigo Testamento havia o Fara, e do Novo Testamento havia Herodes, muito 
conhecido nos mistrios da Inglaterra, Polnia, Rssia e outros lugares. Ele era tradicionalmente representado na Inglaterra como um fanfarro megalomanaco, que 
se declarava Deus: "Pois sou aquele que at fez o cu e o inferno/ E pelo meu grande poder sustenta-se este mundo". Em tempo de guerra, externa ou civil, os governantes 
eram freqentemente comparados aos tiranos da Bblia. Henrique II, da Frana, foi descrito como "Fara" numa cantiga huguenote, o mesmo ocorrendo com Filipe II numa 
canco pg. 177 holandesa, durante a revolta dos Pases Baixos; um afresco de cerca de 1600 em Sucevita, na Moldvia, mostra a travessia do mar Vermelho, onde as 
tropas do Fara aparecem vestidas como o exrcito polons, principal inimigo dos moldvios naquela poca. Os pregadores da Liga Catlica apresentavam Henrique III 
como um "novo Herodes", depois de ter mandado assassinar o duque de Guise. Na Rssia, a tradicional pea de Herodes foi transformada, provavelmente no final do sculo 
XVII, na do "czar Maximiliano", um governante orgulhoso, cruel e pago que persegue seu filho cristo, at ser abatido pela vingana de Deus. Como a imagem dos ratos 
a enterrarem o gato (acima, p. 38), a pea certamente implica uma crtica a Pedro, o Grande, que aprisionou e possivelmente executou seu filho Alexis e subordinou 
a Igreja ao Estado, a menos que seja antiga o suficiente para corresponder a uma crtica ao cisma de meados do sculo XVII ou a Iv, o Terrvel, que matara o filho 
com suas prprias mos.
 gritante a escassez de casos de comentrios diretos contra monarcas reinantes, embora possamos encontrar pelo menos alguns exemplos ingleses e franceses. Em 1630, 
em Dijon, um retraio de Lus XIII foi queimado nas ruas, e em 1637 aconteceu algo parecido em Aix. No final do sculo XVII, um "pai-nosso" poltico (acima, p. 146) 
referia-se a Lus XIV:

Notre pre qui tes  Marly, votre nom n'  est pas glorieux, votre rgne est
sur sa fin, votre volont n 'est plus fait ni sur Ia terre ni sur Ia mer...
(Pai nosso que estais em Marly, santificado no  vosso nome, vosso reino est a se acabar, no  mais feita a vossa,vontade nem na terra nem no mar...)

Um homem em Thouars, em 1707, teria dito que "le roi est un bougre et un voleur" ("o rei  um velhaco e um ladro"), enquanto um homem de Buckinghamshire disse, 
nos anos 1530, a respeito de Henrique VIII, que "o rei  um velhaco e vive em adultrio, e  um herege e no vive pelas leis de Deus ... No ligo para a coroa do 
rei, e se ela estivesse aqui eu jogaria futebol com ela", um retrato de Jorge II foi queimado em Walsall, em 1750, e em 1779-80 Jorge III apareceu em estampas como 
"sulto", um dspota oriental com seu turbante.12
 mais usual que a hostilidade se desloque e a crtica seja indireta. Isso pode acontecer em estrias situadas no passado; nos romances de cavalaria de brochuras 
francesas, os heris  Huon de Bordeaux, Ogier, o Dinamarqus, os quatro filhos de Aymon  so apresentados em revolta justificada contra Carlos Magno, mas no se 
mostra o imperador em erro. Quem levava a culpa era seu filho Charlot ou pg.178 o sobrinho Bertolais. Da mesma forma, a rebelio de Robin Hood  justificada, mas 
a culpa no  do rei, e o verdadeiro vilo  um funcionrio, o xerife de Nottingham.  como se o rei no errasse, embora possa ser mal orientado por "maus conselheiros", 
para empregar a expresso consagrada. O testemunho da literatura popular condiz com as provas a respeito das rebelies populares. A peregrinao da Graa dizia se 
dirigir no contra Henrique VIII, mas contra Thomas Cromwell. Os levantes camponeses do sculo XVII, na Frana, empregavam dizeres como "viva o rei, abaixo os nomeados" 
(vive le roi, fie aux lus). Os rebeldes no queriam saber se os impostos tinham sido autorizados pelo rei. Eu tenderia a concluir que os reis eram contemplados 
por uma imensa boa vontade popular, eram considerados benevolentes e mesmo hericos, at prova em contrrio, e que as crticas eram reprimidas no s por medo do 
castigo, mas tambm por uma autocensura que podia nem ser consciente  mas que essas inibies poderiam se desfazer com os acontecimentos, caso em que os esteretipos 
de Alexandre e Salomo seriam substitudos pelos de Herodes e Fara.
Se um estudo do governante como heri popular ajuda a esclarecer as atitudes polticas populares, outros heris, viles e bobos devem nos informar sobre as atitudes 
sociais, as atitudes dos diversos grupos que compem a sociedade: o clero, a nobreza e o "Terceiro Estado", em que se incluiriam os prprios artesos e camponeses. 
Em estampas e ilustraes s vezes encontramos imagens dos trs Estados, onde o padre diz "oro por todos", o nobre diz "luto por todos" e o campons diz "trabalho 
por todos".14

O clero
Para uma imagem herica dos religiosos, basta recorrermos s lendas dos santos. H, por exemplo, o asceta: a austeridade de so Jernimo e santo Antnio Abade, que 
jejuavam, oravam e mortificavam a carne no deserto, parece ter ganho a imaginao popular. Um segundo tipo de heri clerical  o bom pastor, um homem caridoso devotado 
ao bem-estar material e espiritual do povo simples. So Martinho, bispo de Tours, repartiu seu manto com um mendigo ("a caridade de so Martinho"). So Benedito 
ajudou um campons que deixara cair seu machado no rio, fazendo-o flutuar  superfcie. So Nicolau, bispo de Myra, um dos santos mais populares, ajudou os marinheiros 
pg. 179 quando o barco em que ele estava foi apanhado por uma tempestade, e numa noite deixou dinheiro na casa de um pobre, para que suas filhas tivessem os dotes 
de casamento que precisavam ("a caridade de so Nicolau"). So Francisco combinava as qualidades de asceta e pastor, jejuando e orando no deserto, mas tambm dando 
suas roupas, aplacando o lobo de Gubbio devorador de gente e pacificando a luta de faces em Arezzo. So Francisco, evidentemente, era modelado pelo prottipo de 
Cristo, no s recebendo os estigmas como tambm (segundo algumas verses da lenda) tendo nascido numa manjedoura.15
Em outras fontes, porm, pode-se encontrar uma imagem diferente do clero. O frei Tuck, o alegre frade que gosta de brigar e adora comer,  apenas um entre uma srie 
de padres simpticos, mas no hericos. Dois austracos, "Pfaffe Amis" e "der Pfarrer vom Kalenberg", eram uma espcie de trapaceiros medievais ainda populares no 
sculo XVI. Seu equivalente toscano  o "padre alegre" da Florena do sculo XV, il piovano arlotto ("o proco gluto"), como ele se refere a si mesmo, mal conseguindo 
ler seu missal, apreciador de vinhos, mulheres e pilhrias, s custas tanto do clero como dos laicos.16
As fraquezas do clero nem sempre recebem uma descrio to simptica na tradio popular; muitas vezes, eles so apresentados como viles ou bobos, ignorantes, orgulhosos, 
gananciosos, preguiosos, luxuriosos em relao s mulheres. Insiste-se nisso com uma fora particularmente intensa na literatura popular da Reforma alem. O Totenfresser 
de Pamphilus Gengenbach (1521) mostra um papa, um bispo, um monge e uma freira sentados em torno de uma mesa, trinchando um defunto. Evidentemente,  um ataque no 
s contra a glutoneria do clero, mas tambm  doutrina do purgatrio. Seria melhor observar uma dcada menos revolucionria, se quisermos ver o anticlericalismo 
popular em sua forma normal, expresso em anedotas, peas ou mesmo na arte popular, como a imagem de Staffordshire do sculo XVIII, com o porco do dzimo a perseguir 
o proco. O motivo da cobia clerical  recorrente; pense-se no abade rico e ganancioso que  castigado por Robin Hood (Child 117), ou na estria do padre que no 
enterra o defunto se no lhe pagarem antes (Motif-Index, Q. 286.2) ou do padre que recusa um pequeno suborno apenas porque quer vender sua alma ao diabo por uma 
soma maior (J. 1263). Ainda mais popular  a imagem do clrigo como sedutor. Existem estatuetas russas de madeira e cermica de um monge que traz s costas um feixe, 
onde est escondida uma moa, e o sedutor clerical muitas vezes  o alvo de farsas francesas do sculo XVI. So particularmente os frades que servem de alvo dessas 
zombarias nas estrias italianas, de Boccaccio a Bandello, pg. 180 as quais provavelmente so elaboraes literrias de contos populares, como o do frade Auberto 
disfarado de anjo Gabriel (Decamero, Quarto Dia, n? 2).17

A nobreza
A nobreza parece ter recebido uma imagem melhor do que se poderia esperar. O cavaleiro era um heri popular. Embora os romances de cavalaria medievais ofeream um 
claro exemplo de literatura feita por, para e sobre a nobreza, no h muitas dvidas quanto ao apelo popular desses romances em nosso perodo, resumidos em brochuras 
e baladas ou apresentados em forma de peas, inclusive no teatro de fantoches. Os franceses tinham o seu Rolando (conhecido na Itlia como Orlando), os dinamarqueses 
o seu Holger (conhecido na Frana como Ogier), os ingleses o seu Guy de Warwick, os espanhis o seu Cid, os russos, Ilya de Murom, os srvios, Marko Kraijevi. O 
romance de Os quatro filhos de Aymon (apresentados na garupa do famoso cavalo Bayard) era popular na Frana, Pases Baixos e Alemanha, e o irmo mais velho, Renaud 
de Montauban, seguiu uma gloriosa carreira independente na Itlia, como Rinaldo.
O heri-guerreiro  apresentado de maneira muito semelhante nos vrios romances.  desnecessrio dizer que ele  corajoso e forte; Marko, por exemplo, seria pintado 
assim: "Agarrando um touro adulto pelo rabo, jogou-o aos ombros e carregou-o nas costas enquanto andava ereto". Perto de Turim, nos sculos XVI e XVII, podia-se 
ver uma grande pedra dividida ao meio, e "os camponeses parvos" diziam que Orlando "dividira-a com a sua espada".18 O guerreiro tambm  orgulhoso. O epteto que 
as baladas espanholas do nosso perodo aplicam com maior freqncia a Cid  soberbio, querendo dizer que ele era sensvel a insultos reais ou imaginrios, pronto 
a ving-los. Da mesma forma, uma balada russa apresenta Ilya de Murom em briga com Vladimir, prncipe de Kiev, porque este no o convidara para um banquete; em Os 
quatro filhos de Aymon, Renaud mata Bertolais, sobrinho de Carlos Magno, porque ele o derrotara num jogo de xadrez. Com a importante exceo de Pierre de Provena, 
o cavaleiro geralmente  retratado como um diamante bruto, de maneiras no polidas, cujo principal interesse  a guerra e no o amor. Cid e Guy de Warwick descuram 
de suas mulheres, preferindo as proezas das armas; o tema do amor nem sequer aparece em Os quatro filhos de Aymon. Na tradio pg. 181 popular, a chanson de geste 
tinha maior influncia do que o roman courtois.
A popularidade do cavaleiro era tal que uma srie de santos vinha representada como tal, no s so Martinho, so Floriano e so Maurcio (que se supunha terem servido 
no exrcito romano, antes da converso), como ainda so Jorge, so Jaime e at o arcanjo Miguel.  Em The Seven Champions of Christendom ("Os sete paladinos da Cristandade"), 
a so Jorge e so Jaime unem-se os bravos cavaleiros so Dionsio, santo Antnio de Pdua, santo Andr, so Patrcio e santo Davi.19
Do ponto de vista militar, o cavaleiro de armadura j era um anacronismo em 1500 e,  medida que a guerra se organizava cada vez mais, ele foi gradualmente substitudo, 
tanto no campo de batalha como na imaginao popular, pelo oficial do exrcito profissional, como "o heri austraco" prncipe Eugnio de Sabia. Mas o prncipe 
Eugnio ainda fora forjado pelos moldes de Rolando ou so Jorge, celebrado nos folhetos como "o valente heri", "o nobre cavaleiro" (der tapfere Held, der edle Ritter), 
lutando "como um leo" contra os turcos. Se as tabuletas de estalagem do uma medida dos heris populares ingleses, ento no sculo XVIII se destacariam entre eles 
o duque de Mariborough e o marqus de Granby, alm do almirante Rodney e sobretudo o almirante Vernon, "bravo Vernon, heri da Gr-Bretanha", "almirante Vernon, 
o flagelo da Espanha", como o chamavam as baladas. H mais de cem variedades remanescentes de medalhas cunhadas em sua honra, com a inscrio "ele tomou Portobello 
com apenas seis navios".20
Os generais e almirantes no eram os nicos herdeiros das glrias do cavaleiro. Algo sobrou para o soldado comum. No sculo XVIII, quando ele morava no quartel, 
ao invs de se alojar em casas de pessoas comuns, e no roubava nem saqueava como fazia na Guerra dos Trinta Anos, o soldado podia ser visto sob uma luz herica, 
pelo menos pelos rapazes  e mulheres. Afinal, os soldados "no tinham de trabalhar nos campos; estavam livres do domnio dos pais; vestiam um uniforme magnfico; 
e iam ver algo do mundo". Hussardos, drages e sentinelas figuravam em broadsides e estampas populares, eram pintados em armrios ou transformados em imagens de 
cermica e castiais. Quando so Martinho, repartindo seu manto com um mendigo, aparecia, como na catedral de Bratislava, com o uniforme de um hussardo do sculo 
XVIII, talvez houvesse a uma concesso ao gosto popular.21
O nobre, como o padre, tem um lado no-herico, mas este raras vezes aparece. Nos romances de cavalaria encontramos a figura do cavaleiro pg. 182 traioeiro, como 
Ganelon, Mordred ou o conde Amaury, em Huon de Bordeaux, ou os condes de Carrin, nas baladas de Cid. O soldado jactancioso era uma figura predileta para o papel 
de bobo nos mistrios da Ressurreio (os cavaleiros que guardavam o sepulcro), nos quadros vivos florentinos, em que ele assumia a forma de um Landsknecht alemo, 
e na commedia dell'arte, em que era um capito espanhol. Ele pode ter sido inspirado por reminiscncias do miles gloriosus clssico, mas tambm  uma figura tpica 
nessa era de guerras mercenrias. O que se sente falta na literatura popular  do nobre local, do nobre como proprietrio de terras. O proprietrio rural nobre, 
como o rei, parece ter se beneficiado do fato de estar distante da vida cotidiana do campons. Freqentemente era o moleiro ou o bailio que levava a culpa das aes 
dele. Um ou outro conto popular italiano apresenta um nobre que se casa com uma moa pobre e a abandona, ou um opressor que  levado  justia, depois de certa dificuldade. 
Na balada catal El compte Arnau, o esprito do conde diz que ele est no inferno por ter pago mal seus empregados  per pagar mal les soldades. Uma famosa estampa 
francesa de aproximadamente 1789 mostra o nobre na garupa do campons, Talvez seja relevante observar que na Europa oriental, onde os nobres reduziram os camponeses 
 servido durante esse perodo, o grau de alfabetizao era baixo, de modo que raramente sobreviveram evidncias a respeito das atitudes populares; que na Alemanha 
oriental, em 1525, alguns camponeses declararam que "a fidalguia de Kreymen roubava o cereal dos pobres"; e que em Mecklenburgo coletou-se da tradio oral uma srie 
de estrias sobre a tirania do senhor rural nobre.22

A classe mdia
Pode ser que a potencial hostilidade dos camponeses em relao aos seus senhores rurais, como em relao aos seus governantes, tenha se deslocado para um outro grupo 
social, a classe mdia: advogados, funcionrios, comerciantes e mdicos. Numa famosa estampa popular, corrente na Frana e na Alemanha, o advogado era apresentado 
como um quarto Estado: "eu como tudo" so as palavras postas em sua boca. Um conto popular alemo do perodo, muito conhecido, descrevia um advogado rapace que, 
quando uma de suas vtimas disse "o Diabo o leve", foi literalmente levado pelo Diabo. Um outro conto popular se refere ao advogado que tenta praticar a profisso 
sem erros nem mentiras. A mscara de Dottore, na commedia deill'arte, s vezes chamado pg. 183 Dottor Grazian (segundo o nome de um advogado medieval de direito 
cannico que ensinava em Bolonha), apresenta o doutor em direito como um bobo ignorante, pedante e pretensioso. Uma srie de provrbios russos refere-se  corrupo 
dos juzes: "a corte  reta, mas o juiz  torto", ou "no se fala com juiz de mo vazia". Existe tambm um rico veio de evidncias inglesas sobre a hostilidade popular 
contra "o advogado de duas lnguas", particularmente durante a Guerra Civil. Lilburne chama os advogados e juzes de "ladres cum privilegio". Winstanley declarou 
que "a lei  a raposa, os pobres os gansos; ela arranca as penas e se alimenta deles". Uma cano dgger* inclua o verso "Agora de p contra advogados e contra 
padres". Para entender esse rancor,  preciso lembrar como eram generalizados os processos litigiosos nos incios do perodo moderno; os artesos e camponeses bem 
que podiam ter experincia prpria com os advogados.23
Uma outra figura odiada era o funcionrio, quer fosse o conselheiro ou o executante das deliberaes do governante. A impopularidade do funcionrio, principalmente 
do coletor de impostos, est bem documentada na Frana do sculo XVII, onde os impostos eram "arrendados"; em outras palavras, o direito de colet-los era vendido 
com desconto a particulares conhecidos como partisans, traitants, maltotiers ou gabeleurs (assim chamados pelo famoso imposto sobre o sal, a gabelle). Esses gabeleurs 
eram citados pelos camponeses rebeldes e outros como "tiranos", "canibais", "sugadores de sangue", e no raro eram atacados ao executar a cobrana, costume que parece 
ter sobrevivido na Frana at os dias de Pierre Poujade.24
Outros tipos de negociantes eram considerados quase igualmente infames, principalmente se emprestavam dinheiro a juros, aambarcavam cereais ou mantinham monoplios.

Thou Usurer with thy money bags,
That liveth so at ease:
By  gaping after gold thou dost
Thy mighty God displease,
And for thy greedy usury
And thy great extortion:
Except thou dost repent thy sins,
Hell fire will be thy portion.
(Tu, Usurrio, com teus sacos de dinheiro, / Que vives tanto a folgar: / Por te embasbacares com ouro deves / A teu Deus poderoso pg. 184 desagradar, / E pela tua 
vida usura / E tua grande extorso: /Salvo te arrependas dos teus pecados / O fogo do inferno ser teu quinho.)

Assim reza uma balada impressa de 1612. Em pocas de escassez ou inflao, como no final do sculo XVI e do sculo XVIII, os comerciantes  que eram responsabilizados 
(particularmente "os sanguessugas de Gnova", na Espanha) por "aambarcar" ou "reter", isto , criar uma escassez artificial em proveito prprio. Na mesma categoria 
estavam os monopolistas, como sir Giles Mompesson, cujo monoplio de licenas de funcionamento das cervejarias fez dele provavelmente um dos homens mais odiados 
da Inglaterra. Foi atacado numa estampa de 1621, com a inscrio:

For greedy gain the thrust the weak to wall
And thereby got himself the devil and all.
(Por lucro vido acuou os pobres no muro / E assim ele virou diabo e tudo.)

Dives, com sua estria cantada em baladas (como Child 56) e pintada nas paredes das cervejarias, era o prottipo do rico egosta, invocado, por exemplo, numa carta 
inglesa annima de 1795 sobre a misria dos pobres. Inversamente, o avarento podia ser apresentado como uma figura cmica, um bobo que, ao perder seu dinheiro, fica 
to transtornado que morre, como Reginaldo Sacos de Dinheiro e Joo Olho de Tosto das peas populares do Pas de Gales do sculo XVIII.25
Em comparao com o advogado e o comerciante, o mdico escapava relativamente bem. Em contos e peas populares na Inglaterra, Alemanha e Itlia, ele  retratado 
como indivduo ignorante, pedante, dissimulado e ganancioso, mas  mais bobo do que vilo, talvez porque a maioria dos artesos e camponeses no tivesse experincia 
pessoal com os mdicos e seus honorrios.26
Depois dessa galeria de velhacos, o leitor pode se perguntar para onde foram os heris da classe mdia. Certamente, so bastante raros; h um exemplo de advogado 
honesto, e foi canonizado por isso  o breto santo Ivo, geralmente apresentado como mediador entre um rico e um pobre. Quanto ao empresrio como heri popular, 
figura favorita do sculo XIX, ele est praticamente ausente dos incios do perodo moderno, com uma exceo significativa, a Inglaterra dos sculos XVII e XVIII, 
onde encontramos heris como "o velho Hobson, o alegre londrino" (rico proprietrio de uma loja de armarinhos), Jack de Newbury, o fabricante de roupas de Berkshire, 
Simon Eyre, lorde prefeito de Londres, e sobretudo Dick Whittington. A popularidade de pg.185 Dick na Inglaterra e a inexistncia de equivalentes seus na Europa 
continental so pequenos indcios de que a Inglaterra era uma "sociedade empreendedora" antes da Revoluo Industrial.27

Pessoas comuns
Como os artesos e camponeses viam-se a si mesmos? A auto-imagem dos tecelos, sapateiros e outros profissionais j foi discutida antes (p. 62 e ss.).  muito mais 
difcil descobrir a auto-imagem do campons como Jacques Bonhomme, Karsthans ou Juan Labrador. Evidentemente,  preciso suspeitar de qualquer descrio impressa 
que se proponha apresent-lo. Apesar disso, alguns textos merecem ser aqui discutidos, por terem sido reimpressos diversas vezes e por apresentarem os camponeses 
como heris.
A estria do rei Salomo e Marcolf  medieval e foi escrita em latim, mas era corrente na Europa do sculo XVI, traduzida para vrias lnguas, e assim deve ser levada 
em considerao. Marcolf, s vezes apresentado com um forcado,  um campons "de rosto muito desfigurado e feio". Pode parecer bobo, mas triunfa facilmente sobre 
Salomo, o rei proverbialmente sbio, e se revela "bom falador, eloqente e sbio". Outro campons que no  bobo  o italiano Campriano, que triunfa sobre um grupo 
de mercadores, numa sucesso de incidentes que vo do grosseiro ao sdico.28
Muito mais atraente  o campons francs Bonhomme Misre. Misre  um homem pobre, mas de bom corao. Em virtude da hospitalidade que dispensou a dois viajantes, 
Pedro e Paulo, Misre pode realizar um desejo. Seu desejo  que quem subir na sua pereira (nica coisa que ele tem no mundo) s consiga descer quando ele quiser. 
 como ele apanha um ladro, e liberta-o com o juramento de nunca mais voltar a roubar pras. Mais tarde, astuciosamente, consegue apanhar a prpria Morte, e s 
deixa-a partir depois de prometer que ele ficaria na terra "tant que le monde sera monde". Misre  apresentado como pobre, mas "content de sa destine", simples, 
mas no to simplrio quanto parece, generoso e ao final indestrutvel. No admira que a estria fosse popular.
Quadro parecido sobre a sabedoria de se contentar com pouco  o que mostra um poema corrente na Escandinvia no sculo XVIII, Bonde Lyckan ("Sucesso Campons"): 
pg.186

En 8te kirs bonde
som haver en haest
Gudfrygtig og aer-lig,
god naboe dernaest.
Sin Gud og Kong troe
med hver mands attest.
Er lidet louv-halted,
god ven med sin Praest.
Ved inted af Laensmand
ej heller noen rest.
Boer langt op i skougen,
har skieldum nogen giaest.
Er frie for Herregaarden,
krig hunger og paest.
Vel bruger sin ager,
eng, spade og laest.
Og slider sit vadmel,
skind-buxer og vaest.
Forligt med sin Hustrue,
den han haver faest.
Samt glad i sit arbeid,
den lever aller-baest.
(Um campons com oito vacas / Que tem um cavalo / Temente a Deus e honesto, / E tambm um bom vizinho. / Fiel ao seu Deus e seu rei / Como todos podem atestar. / 
Ele manca um pouco /E  amigo do seu vigrio. / Nem v o magistrado / No deve nada a ningum. / Vive no alto da floresta, / Raramente tem um convidado. / Est livre 
do senhor de terras / Da guerra, fome e peste. /Usa bem seu terreno, / Pasto, p e sapato. / Veste pano feito em casa, / Cala e colete de couro. / D-se bem com 
a mulher / E a mantm consigo. / Feliz no seu trabalho, / Que ele ama acima de tudo.)29

Se o leitor achar esse quadro idlico demais para ser verdadeiro, talvez valha a pena enfatizar que o heri campons evita os senhores rurais como a peste, que deve 
sua liberdade ao fato de viver to "no alto da floresta", assim como est livre do servio militar por ser manco. O autor desconhecido desses versos  como Marcolf, 
Campriano e Misre  no  to simplrio quanto parece. Se no so um auto-retrato, apresentam uma imagem a que o campons daria sua aprovao.
A imagem que o arteso fazia do campons era bem menos lisonjeira. A hostilidade entre campo e cidade era forte em muitas partes da Europa em nosso perodo, intensificada 
pelo fato de que muitos habitantes da cidade, a includos os artesos, possuam pequenas parcelas pg.187 de terra. Essa prtica parece ter sido particularmente 
corrente na Itlia, e talvez no seja casual que algumas das imagens mais marcadas do campons como vilo sejam italianas, como as que vm expressas em Le malitie 
di villani ("As malcias dos camponeses"), cano que diz que eles so "como animais" e que:

In mal far si sono astuti
Si li vecchi come i putti
I me par ribaldi tutti
Con lor non  da praticare
De villani non te fidare.
(Em ms artes so ardilosos / Tanto os velhos como os novos /E a mim parecem tratantes todos / Com eles no  de se negociar /Em camponeses no deves te fiar.)

Uma pea do sculo XVI tem como vilo um certo Biagio, "um campons traioeiro" (un perfido villano), que cobra um preo alto demais pelos produtos que vende no 
mercado e por isso  punido por um grupo de cidados. A prpria palavra villano naquela poca significava tanto "vilo" como "campons"; tambm na Inglaterra h 
relao entre villain e villein. Quando de melhor humor, os habitantes das cidades e seus porta-vozes, notadamente Hans Sachs, consideravam os camponeses como figuras 
engraadas. Seu Heinz in Nrnberg zomba do campons simplrio que vai  cidade para obter os privilgios de cidado, tema retomado por uma cantiga italiana sobre 
um campons que queria se tornar cidado de Ferrara. A moral  clara: campons, mantenha-se em seu lugar!30
As mulheres tambm tinham de saber qual era o seu lugar, como fica claro no s nas imagens populares (masculinas) da mulher vil, tal como a megera, mas at nas 
imagens das heronas. As heronas populares, em sua maioria, eram objetos, admiradas no pelo que faziam mas pelo que sofriam. Para as mulheres, o martrio era praticamente 
a nica via para a santidade, e existiam muitas lendas sobre mrtires virgens que no se distinguem muito facilmente umas das outras, a no ser pelas mortes e torturas 
que tiveram: santa gata, cujos seios foram cortados, santa Catarina, que foi supliciada na roda, santa Luzia, cujos olhos foram arrancados, e assim por diante. 
Particularmente corrente nos Pases Baixos, Frana e Alemanha era a estria de Genevive de Brabante, a esposa falsamente acusada de adultrio e expulsa pelo marido, 
que viveu nas florestas at descobrirem sua inocncia. Igualmente passivas eram duas heronas que muitas vezes ocuparam o lugar dos santos em pases protestantes: 
a casta Susana (falsamente acusada, mas vingada, como Genevive) e a paciente Griselda, pg.188 que eram celebradas em peas alems, em teatros de fantoches ingleses, 
em baladas suecas, em folhetos dinamarqueses. Igualmente passiva  Cinderela, e tambm outras heronas de contos populares; quase igualmente passiva  a Virgem Maria, 
figura de obedincia (a Anunciao) ou sofrimento resignado (a Crucificao). Judite a matar o tirano Holofernes parece ter sido uma exceo entre as heronas.31
A mulher vil, por outro lado,  retratada em intensa atividade, quer reclamando, seduzindo, provocando mau tempo, roubando o leite do gado do vizinho ou batendo 
no marido. O predomnio de mulheres nos processos por feitiaria  a melhor prova da fora das tradies populares misginas; a isso podem-se acrescentar as inmeras 
anedotas sobre a malcia das mulheres, algumas compiladas em livretos dedicados inteiramente ao tema. O que essas anedotas tendem a ressaltar  o perigo de se confiar 
nas mulheres: Eva, Dalila ou a mulher de Putfar eram prottipos emocionalmente vigorosos da mulher enganadora.32


Os forasteiros
Nenhuma imagem de sociedade ficaria completa sem os forasteiros. Um tipo de forasteiro muitas vezes tido como heri era o fora-da-lei. Emprego deliberadamente o 
termo neutro "fora-da-lei" como descrio geral de uma srie de modos de vida opostos aos oficiais. Nos mares, havia o pirata ingls ou o zeeroover holands. Em 
terra firme, havia o highwayman ingls, o reiver escocs, o Strassenraber alemo, o bandito italiano (originalmente "desterrado" e depois "bandido") e o bandolero 
espanhol.  luz das baladas, o fora-da-lei parece ter sido uma figura ainda mais importante na cultura popular da Europa oriental do que na ocidental: o razboinik 
russo, o loupeznk tcheco, o uskok croata, o btyr hngaro e o haiduk do sudoeste europeu. A pequena densidade demogrfica e os governos centrais relativamente 
fracos fizeram com que os fora-da-lei florescessem no leste por mais tempo do que no oeste, e era mais provvel que um campesinato pobre e submetido  servido mostrasse 
maiores simpatias pelos fora-da-lei do que um campesinato mais livre ou mais prspero.33
Os fora-da-lei eram mais parecidos com os governantes do que com os santos e tendiam a ser populares apenas em suas prprias regies. A fama de Robin Hood se restringia 
 Inglaterra, a de Joan de Serrallonga  Catalunha, a de Stenka Razin  Rssia. Por alguma razo, parece ter surgido um grande nmero de novos heris-fora-da-lei 
no sculo XVIII; talvez a difuso de broadsides e brochuras tenha pg.189 imortalizado nomes que de outra forma teriam sido esquecidos, alm de gravar faanhas que, 
com o tempo, teriam sido transferidas para outros personagens. Na Rssia do sculo XVIII encontramos o rebelde cossaco Emiliam Pugatchev; nos Crpatos, Oleks Dovbus; 
na Eslovquia, Juraj Jnosk; na Andaluzia, Diego Corrientes, "o bandido generoso"; em Npoles, Angiolillo; na Gr-Bretanha, o capito Kidd (nascido na Esccia), 
Rob Roy e Dick Turpin, que era salteador de estradas, arrombador, ladro de cavalos e contrabandista; na Frana, Cartouche, que liderava uma quadrilha de ladres 
em Paris, e Mandrin, que organizava o'contrabando no Dauphin.34 O fato de os fora-da-lei serem to lendrios sugere que satisfaziam desejos reprimidos, permitindo 
que o povo simples se vingasse imaginariamente das autoridades s quais geralmente eram obedientes na vida real.
O tema central das lendas sobre o fora-da-lei herico  a reparao das injustias e a ajuda que ele presta s pessoas comuns. Robin Hood roubava os ricos e dava 
aos pobres, como indicam as baladas, notadamente Gest of Robyn Hood (Child 117) A True Tale of Robin Hood ("Um conto verdico de Robin Hood") (Child 154). Essa caracterstica 
viria a se tornar um lugar-comum na biografia do fora-da-lei no mundo de lngua inglesa. Rob Roy, como Robin, deu dinheiro a um pobre que tinha uma dvida com um 
rico, e logo a seguir trou-o de volta do rico. Dick Turpin deixou seis libras na casa de uma mulher pobre, num gesto que lembrava a caridade de so Nicolau. Tambm 
na Espanha, uma balada tradicional se refere a:

Diego Corrientes, el ladrn de Andaluca,
Que a los ricos robabay a los pobres socorra.

Em outros lugares, o tema passa por variaes locais, conforme as necessidades. As baladas de Stenka Razin mostram-no a punir funcionrios injustos e a enforcar 
um governador tirnico na sua prpria forca. Angiolillo, segundo se dizia, defendia a honra de donzelas virgens e vendia trigo barato aos pobres em tempos de penria.35
O fora-da-lei, alm disso, no raro  descrito em termos emprestados ao esteretipo do cavaleiro. Robin Hood era descrito como "corts": "Nunca faria mal a um grupo/ 
Onde houvesse qualquer mulher". Stenka Razin era apresentado nas baladas como um bogatyr, heri guerreiro tradicional. Serrallonga era descrito como galn, "gallant" 
em todos os sentidos da palavra.* Mandrin se destacava pela sua "politesse... pg.190 avec le beau sexe, e  apresentado numa biografia como preux (valente), adjetivo 
associado a Rolando e outros heris dos romances de cavalaria.
No entanto, o fora-da-lei nem sempre tinha essa imagem idealizada. Serrallonga pode ter sido um heri popular, mas a arraia-mida de sua profisso era vista de forma 
um tanto diversa, como sugerem alguns livretos catales do sculo XVI. Os versos sobre um certo lanot Poch, por exemplo, ressaltam os "males e catstrofes" que ele 
e sua quadrilha tm causado, sugerindo que ele est "endemoninhado" (endiablado) e acusando-o de crueldade em relao s pessoas comuns:

La pobra gent robaves
Fins los claus de Ias parets.
(A gente pobre roubavas, / At os pregos das paredes.)

De maneira semelhante o folheto Captain Kidd's Farewell to the Seas ("Adeus do capito Kidd aos mares") (1701) apresenta-o como orgulhoso e cruel, aspectos desenvolvidos 
numa verso americana posterior do sculo X VIII.36
Se as atitudes em relao aos fora-da-lei so por vezes ambguas ou ambivalentes, a imagem de outros forasteiros  muito clara: so irrestritamente perversos e temveis. 
Os exemplos mais evidentes so o turco, o judeu e a bruxa.

        
        (*) Alm dos sentidos de "galante" em portugus, gallant tambm indica qualidades de coragem, bravura, imponncia, nobreza, valor, grandiosidade, etc. (N.T.)

A imagem popular sobre o turco ou qualquer outro muulmano era a de um blasfemo que nega Deus e no a de uma pessoa com uma religio prpria. Alm disso, os turcos 
eram tidos como sanguinrios, cruis e traioeiros. Quando os soldados cristos cometiam atrocidades, dizia-se que se comportavam "como turcos". A prtica do tiro 
ao alvo na Inglaterra elisabetana era conhecida como "tiro ao turco", pois a imagem de um turco era um alvo predileto para as flechas. Os turcos mal eram considerados 
humanos: descreviam-nos usualmente como lobos ou ces. Na Espanha e na Srvia, onde os muulmanos eram mais vizinhos do que forasteiros, s vezes eram retratados 
como inimigos respeitveis, mas nem sempre; o governador veneziano de Split queixou-se em 1574 de que os habitantes locais "tm vrias baladas sediciosas sempre 
presentes na boca, em especial uma que compara o turco a uma torrente devoradora, que cantam  noite, sob as prprias janelas do nosso palcio".37
Ainda mais temvel, se possvel, era o forasteiro que vivia dentro da comunidade, o traidor dentro dos portes  por exemplo, o judeu. Os judeus, assim como os turcos, 
no eram tidos como humanos, mas como "ces" ou porcos; gravuras em madeira mostravam uma judia pg.191 que tinha dado  luz leitezinhos ou uma porca a amamentar 
bebs judeus. Eram vistos como feiticeiros e blasfemos, e muitas vezes acusados de profanar a hstia ou imagens sagradas. Uma estria popular, O judeu errante, falava 
sobre o sapateiro que no deixou Cristo descansar em sua via sacra e foi condenado desde ento a vaguear pelo mundo. Os judeus eram considerados criminosos por terem 
crucificado Cristo, e muitas vezes eram acusados de assassinar crianas em rituais, como na balada Hugh of Lincoln (Child 155). Freqentemente aplicava-se a eles 
o esteretipo do usurrio cruel e ganancioso. Em peas de mistrio. Judas era com freqncia representado como um tpico usurrio judeu desse gnero, e em estampas 
alems do sculo XVII figuravam judeus que lucravam com a fome e falsificavam moedas. Livretos com biografias de Judas contam que ele matou o pai e casou com a me, 
como se os desejos reprimidos fossem projetados para o maior dos viles humanos.38
Da mesma forma, a bruxa era vista como uma traidora dentro da comunidade, cujas blasfmias contra a cristandade consistiam em insultar a cruz e a hstia, fazer mal 
aos vizinhos, comer crianas e se entregar a orgias sexuais com demnios. Aqui tambm tem-se sugerido que o povo projetava na bruxa "seus terrveis desejos inconfessos". 
Os processos por feitiaria aumentaram agudamente em muitas partes da Europa durante o sculo XVI. Os historiadores tm dificuldades em saber at que ponto o dio 
e o medo s bruxas eram espontneos, e at que ponto era necessrio ao clero converter as pessoas comuns a uma bruxofobia.  provvel, ainda que no seja fcil demonstrar, 
que o esteretipo da velha com poderes sobrenaturais empregados para fazer mal s pessoas fosse uma crena popular que remontasse  Idade Mdia ou mesmo antes, ao 
passo que o esteretipo da bruxa como herege ou blasfema, em aliana com o Demnio, era uma crena das elites  qual o povo se converteu de maneira gradual. A histria 
comparativa nos fornece um argumento a favor dessa idia. Na Europa ortodoxa, no se deu nenhuma grande caa s bruxas nos sculos XVI e XVII; a Rssia, por exemplo, 
ficou imune a ela. Mas no folclore russo havia uma figura vil com grandes semelhanas com uma bruxa: Baba Yaga, uma velha medonha com um nariz de ferro que voava 
pelos ares sentada dentro de um pilo e comia crianas. O que estava ausente era a idia de um pacto entre a velha e o Diabo.
Dois viles mais populares foram criados ao longo da Reforma: o esteretipo catlico do protestante malvado e o esteretipo protestante do "papista" malvado. As 
novas imagens tinham muito em comum com os esteretipos do judeu e da bruxa, dos quais foram claramente pg.192 extrados vrios elementos. Na Frana do sculo XVI, 
os catlicos descreviam os protestantes como porcos, sacrlegos e blasfemos  seno, por que haveriam de atacar as relquias e imagens? , "enfeitiados" pela nova 
religio, traioeiros, pessoas que se compraziam em matar crianas, praticar canibalismo e sexo promscuo, com o estmulo dos seus ministros religiosos. Inversamente, 
na Inglaterra do sculo XVII, os protestantes tinham os catlicos por idlatras, adeptos do Demnio, conspiradores e traidores que queriam destruir a liberdade inglesa 
e instaurar uma tirania papal, espanhola ou francesa, sem falar da Inquisio.
O dio aos forasteiros era to corrente que se fica a imaginar se a maioria das pessoas comuns do perodo no era o que os psiclogos s vezes chamam de "personalidade 
autoritria", combinando submisso  autoridade com agressividade em relao a pessoas de fora do seu grupo.39

ATITUDES E VALORES POPULARES

A maior parte dos heris  e viles  descritos nas ltimas pginas realmente existiu. Por que alguns reis, bispos ou elementos fora-da-lei tornaram-se heris e 
outros no? Para tentar responder a essa pergunta  importante que se evitem dois erros opostos. Os historiadores tendem a ter viso estreita, e a grande custo tentam 
explicar a lenda de, digamos, Henrique IV, da Frana, em termos das caractersticas do rei e das atitudes em relao  sua poltica. O problema dessa abordagem  
que as estrias passam de um rei-heri para outro, e tambm que no existe nenhuma correlao evidente entre o poder e prestgio de um governante em sua poca e 
a reputao pstuma ou a posio que chegue a ocupar na tradio popular. O imperador Carlos V possua um grande poder, mas so muito pequenos os indcios de que 
tenha sido visto como heri aps sua morte. No se pouparam esforos em apresentar Lus XIV como heri durante sua vida, mas foram em vo; ao contrrio do seu av 
Henrique, Lus no parece figurar nos contos populares franceses.40 Por outro lado, personalidades relativamente apagadas como Sebastio, de Portugal, e Guilherme 
III, da Inglaterra, realmente tornaram-se heris populares.
Os folcloristas, por outro lado, tendem a ter uma viso por demais abrangente. Eles insistem no fato de que as mesmas estrias so contadas a respeito de muitos 
heris diferentes e que um esteretipo conhecido "se cristaliza" em torno de um determinado indivduo, sem pg.193 se indagarem da razo para a escolha desse indivduo. 
O que foi que o tornou capaz de se converter em mito? Por que o processo de cristalizao se deu em torno dele, e no de outro qualquer?41
Podem existir respostas diferentes a essas perguntas segundo os diferentes casos, mas uma sugesto plausvel poderia ser a de que certos indivduos se adaptam ou 
so vistos, sob determinados aspectos, como se se a adaptassem a um esteretipo herico, como o do rei justo ou do fora-da-lei nobre. Essa conformidade aparece  
imaginao de cantores, contadores de estrias ou pintores, e assim comeam a circular contos e imagens desse indivduo. Ao longo dessa circulao, suas vidas e 
feitos so assimilados ao esteretipo sob outros aspectos, alm dos originais. Essa assimilao em parte se deve a razes tcnicas do gnero j discutido (acima, 
p. 165).  mais fcil adaptar frmulas verbais ou pictricas a um novo heri do que criar novas frmulas. Em todo caso, a imagem tradicional corresponde s expectativas 
do pblico.
Essa teoria  ambiciosa demais para poder apresentar uma demonstrao exata, mas podemos indicar alguns elementos que condizem com ela. Se o rei tem o mesmo nome 
de um heri-governante, isso vai ajudar a lan-lo na tradio popular. Frederico, o Grande, herdou alguma coisa do tradicional "imperador Frederico", figura que 
j era o resultado da assimilao de Frederico II a Frederico I. Se Lus XII, de Frana, gozou de uma reputao de justia durante os sculos XVII e XVIII, isso 
talvez se deva parcialmente ao fato de ter sido assimilado a so Lus, Lus IX. Se Martinho Lutero era visto como um santo protestante, notadamente na famosa gravura 
de madeira de Hans Baldung, isso talvez se deva parcialmente ao fato de que so Martinho j era um heri popular  e inversamente, o culto de so Martinho pode ter 
sobrevivido na Alemanha evanglica por associao com Martinho Lutero.
As prprias aes de um governante, evidentemente, podiam ajud-lo a ser visto em termos do esteretipo. Guilherme III e Carlos II realmente obtiveram vitrias, 
Henrique IV realmente trouxe a paz, Lus XII e o imperador Jos II realmente se preocupavam com a justia e a reforma, Sebastio realmente lutou contra os infiis. 
Se a estria do governante que no est morto, mas apenas dorme, aplicou-se a Sebastio, pode ter sido porque sua morte no foi presenciada, e ele no morreu em 
Portugal. Se o topos "Harun al-Rachid" aplicou-se a Pedro, o Grande, pode ter sido porque Pedro realmente viajava incgnito, embora o fizesse na Inglaterra e na 
Repblica Holandesa, e no na Rssia. pg.194
Finalmente, as catstrofes que ocorrem depois da morte dos governantes ajudam a converter alguns deles em heris, estimulando o povo a olhar para trs, para os bons 
velhos tempos sob aquele governo. A invaso turca na Hungria, em 1526, provavelmente ajudou a converter o rei Mtys, falecido em 1490, num heri; a tomada de Portugal 
pelos espanhis em 1580 provavelmente teve o mesmo efeito em relao a Sebastio, que fora morto em 1578. Talvez a "poca das agitaes" na Rssia, por volta de 
1600, atenuasse os traos sombrios da carreira de Iv, o Terrvel, que morreu em 1584.
O processo de cristalizao no se restringe a governantes, mas parece funcionar para outros tipos de heris ou vilo popular. Os fora-da-lei britnicos eram assimilados 
a Robin Hood. Gabriel Ratsey, um fora-da-lei ingls pouco importante, ao que se diz teria tentado roubar um homem, mas, ao descobrir que era pobre, deu-lhe, ao invs, 
quarenta xelins, dizendo que ele ajudava os pobres, "pois os ricos podem se ajudar sozinhos". Contavam-se estrias de tipo Robin Hood sobre Dick Turpin e tambm 
Rob Roy, cujo nome certamente era adequado para lhe favorecer o sucesso na carreira escolhida. Na Rssia, a imagem de Pugatchev foi assimilada  de Razin, com quem 
se parecia em alguns aspectos evidentes, como o fato de ser cossaco e rebelde, e a carreira de Razin, por sua vez, era recordada segundo termos prprios  de Pugatchev. 
Dick Whittington, sobre o qual sobreviveram algumas informaes confiveis,  um ntido caso de cristalizao. Ele era um comerciante rico e generoso, que fundou 
o Whittington College. Portanto, teve de ser descrito como algum de origens humildes (quando de fato provinha de linhagem fidalga), que se casou com a filha do 
patro (o que sabemos no ser verdade).42
Um dos casos mais notveis de assimilao a um esteretipo  o de Fausto. Sua estria, tal como era contada nos teatros de fantoches e livretes populares dos incios 
do perodo moderno,  uma combinao de vrios temas tradicionais: o do homem que faz um pacto com o Demnio, como Tefilo; o do mago que tem uma relao perigosamente 
prxima com as foras do mal, como o frei Bacon; e o do trapaceiro, como Till Eulenspiegel. No livro sobre Fausto de 1587, esses temas se combinaram e se cristalizaram 
numa figura relativamente menor, um certo Georgius Faustus de Heidelberg, que viveu no incio do sculo XVI e estudava magia.43

Perguntas mais importantes so: por que esses esteretipos existiram nos incios da Europa moderna? Por que os heris eram apresentados pg.195 dessas maneiras especficas? 
O que isso nos diz a respeito das atitudes populares? Aqui o historiador se encontra num dilema. O objeto  demasiado esquivo para permitir que ele apresente algo 
muito alm de impresses e especulaes; por outro lado,  demasiado importante para ser deixado de lado. Num espao reduzido, o melhor  apresentar apenas alguns 
pontos.
O primeiro se refere ao fantstico, presente em quase todos os lugares. Ele domina as vidas dos santos, desde o nascimento at a morte. So Jorge nasceu com a marca 
de uma cruz vermelha na mo direita, so Nicolau nen se recusava a mamar nas sextas-feiras, so Joo Batista profetizava no bero. Os relatos dos martrios vm 
crivados de intervenes sobrenaturais. Quando os seios de santa gata foram cortados fora, cresceram novamente; santa Lcia ficou imvel e mil homens no conseguiram 
mov-la. Dos santos podem-se esperar milagres, mas os cavaleiros, reis e fora-da-lei s vezes tambm faziam alguns. Os cavaleiros realizam faanhas sobre-humanas 
com suas armas. Frederico, o Grande, ao que se dizia, era invulnervel e tinha dois livros de magia para ajud-lo a ganhar as batalhas. O rei Olavo, ao que se acreditava, 
fazia curas milagrosas. Na Frana e Inglaterra, a magia dos reis era institucionalizada e assumiu a forma de cura pelo toque nos casos de "mal-do-rei" (king's evil), 
isto , a escrfula, prtica que atingiu seu auge no sculo XVII. Enquanto Lus XII tocou quinhentas e tantas pessoas num ano, Lus XIII tocou mais de 3 mil e Lus 
XIV, certa feita, tocou 2400 num s dia.44
Os poderes sobre-humanos tambm constituem um trao recorrente nas biografias de elementos fora-da-lei. O manejo do arco de Robin Hood era fenomenal: "ele sempre 
cortava a vara". Turpin foi de Londres a York num s dia, faanha tal que sua chegada lhe serviu de libi. No entanto, essas proezas nada so em comparao s dos 
razboiniki russos. Projteis e balas de canho no feriam Stenka Razin, e uma vez ele escapou da priso desenhando um barco na parede e embarcando nele.45 Aos viles 
tambm se atribuam poderes sobrenaturais, por terem o auxlio do Demnio. Turcos e judeus eram constantemente associados ao Demnio em versos e estampas. Bruxas 
e magos (como Fausto) supostamente tinham um pacto com o Demnio. Os protestantes diziam que o papa tinha feito um pacto com o Demnio, e os catlicos diziam que 
Lutero  que o fizera. Tudo o que estivesse fora da vivncia do povo simples requeria uma explicao em termos fantsticos. Ser culto era anormal, de modo que um 
homem culto devia ser um mago, devia (como frei Bacon e outros) ter uma cabea de bronze em seu gabinete de estudos que respondia s suas perguntas (Motif-Index, 
D 1311.7.1). pg.196 Ser rico era anormal, e um homem rico devia ter oprimido os pobres, ter encontrado um tesouro enterrado ou, como em A histria de Fortunatus, 
ter recebido uma bolsa que nunca se esvaziava.
Assim como a bolsa mgica, os objetos, alm das pessoas, tambm podiam ter poderes sobrenaturais: espadas, anis, etc. A imagem de um santo podia ser to poderosa 
como o prprio santo e, como uma pessoa, podia estar sujeita a persuaso e at ameaas. O povo de San Pedro de Usun ameaou jogar a imagem de so Pedro dentro do 
rio, se suas oraes no fossem ouvidas, e o povo de Villeneuve-Saint-Georges realmente jogou o so Jorge deles ao Sena, em 1735, depois que o santo no cuidou direito 
dos seus vinhedos. Freqentemente ofereciam-se ex-votos a imagens milagrosas, e s vezes se acreditava que imagens diferentes do mesmo santo eram rivais, como os 
dois so Cristvo, em Tarragona.46 Esse "pensamento concreto", como por vezes  chamado, tambm se revela no uso das personificaes. Na Srvia do sculo XVIII, 
a peste era vista como uma velha que podia ser mantida a distncia da aldeia se se executassem os rituais certos. O Carnaval era um gordo; a Quaresma, uma velhinha 
magra (adiante, p. 209). Nesse contexto, as ameaas dos camponeses bretes em atirar na gabelle "como um cachorro louco" no parecem to implausveis (acima, p.102). 
Numa estalagem francesa do sculo XVII, no se veria um aviso como "no pea fiado para no se ofender com a recusa", mas a pintura de um defunto intitulada Crdit 
est mort ("O fiado morreu") (ilustrao 9). Este  o significado da imagem em todas as pocas, como mostra qualquer passada de olhos num jornal ou num cartaz, mas 
o exemplo breto sugere que ela podia ter sido levada um pouco mais a srio no sculo XVIII do que hoje em dia. Se no acreditavam totalmente que a gabelle era uma 
pessoa, talvez tambm no desacreditassem totalmente.47 As pessoas eram os bodes expiatrios dos, processos. O que se atacava no era o sistema, mas o indivduo, 
no a coroa, mas o rei ou seus conselheiros.
 por essa razo, entre outras, que as atitudes populares nesse perodo podem ser consideradas genericamente "conservadoras", ou melhor, "tradicionais". O fato de 
que os artesos e camponeses aceitavam santos, governantes e cavaleiros como seus heris sugere que eles se identificavam com os valores da Igreja, realeza e nobreza 
ou, pelo menos, que tinham de estruturar o seu mundo atravs de modelos fornecidos pelo grupo dominante.48 Os camponeses de Telemark, na Noruega, foram descritos 
em 1786 como tendo um princpio bsico: "Sigam as velhas formas. Oponham-se a todas as inovaes" pg.197 (Folg gammel Skik, Staae imod alle Anordninger). Essa frmula 
povoa uma srie de provrbios do gnero "no troque velhos costumes por novos" ou, como dizem os catales, no et deixis els costums vells pels novells: isso serve 
como um resumo das atitudes do povo desse perodo, desde que ele no seja mal compreendido.49
Isso no significa que os artesos e camponeses estivessem satisfeitos com a ordem social exatamente como ela era. Eles no viam a sociedade em termos de harmonia, 
mas em termos de conflito. Queixavam-se da pobreza, da injustia, do desemprego, dos impostos, dos dzimos, do arrendamento e dos servios a prestar. Freqentemente 
referiam-se  explorao, ou, como diziam mais concretamente, aos ricos que "esfolavam" ou "devoravam" os pobres. Algumas estampas populares mostram um peixe grande 
a comer peixinhos midos, cuja interpretao bvia  que (como diz o pescador em Pricles, de Shakespeare) os peixes vivem no mar exatamente como os homens vivem 
na terra. Os artesos e camponeses tinham clara conscincia, como sugerem as observaes j citadas a propsito dos juzes e advogados, da dificuldade em conseguir 
atravs da lei uma reparao das injustias sofridas.50
O que achavam eles que se poderia ou deveria fazer a respeito dessas injustias? Justapondo as evidncias dos textos  canes, contos, provrbios  s evidncias 
das aes  os vrios motins e rebelies do perodo ,  possvel encontrar vrias respostas, e talvez seja til distinguir cinco pontos num amplo espectro de atitudes: 
o fatalismo, o moralismo, o tradicionalismo, o radicalismo e o milenarismo.
A resposta fatalista, no perceptvel em termos de ao, expressa-se na resignao dos provrbios. As coisas no podem ser diferentes. Assim, muitos provrbios, 
nas vrias lnguas, comeam com "tem-se que ..." (il faut, man mss, bisogna...). "Deus  muito alto e o czar est muito longe", dizem os russos, ou "viver  bater 
ou apanhar". "Gente pobre passa mal", dizem os holandeses, ou "Deus d, Deus tira".51 O que se pode fazer nessa vida  sofrer e suportar. Contudo, outros achavam 
que "Deus ajuda a quem se ajuda" (provrbio to corrente naquele perodo como atualmente). A resposta fatalista transforma-se gradualmente em resposta moralista, 
que v os problemas e injustias do mundo como sintomas do que est errado na natureza humana, e no do que est errado na ordem social. Esta no  uma atitude passiva; 
permite uma ao contra os viles sempre que possvel.  a atitude expressa na figura do vingador, o fora-da-lei nobre que investia contra indivduos ricos ou injustos, 
assim como ajudava indivduos pobres ou prejudicados, sem tentar modificar o sistema social.52 pg.198
A resposta moralista transforma-se gradualmente na tradicionalista, que  a de resistir, em nome da "velha ordem" (das alte Recht, stara pravda, gammel skik, etc.), 
a transformaes que estejam ocorrendo. A nfase pode recair sobre indivduos perversos que rompem com a tradio, mas pode recair tambm sobre novos costumes (ou, 
como diramos, novos "rumos"). No  um conservadorismo insensato, mas uma amarga conscincia de que a transformao geralmente se faz s custas do povo, associada 
 necessidade de legitimar o motim ou a rebelio. Por isso os camponeses alemes que se insurgiram em 1525 declararam que estavam defendendo seus direitos tradicionais; 
os camponeses normandos que se levantaram em 1639 resistiram s pretenses de Lus XIII em nome das leis de Lus XII; os participantes dos motins por alimentos na 
Inglaterra do sculo XVIII reivindicavam os preos e restries tradicionais aos exploradores; os camponeses de Telemark, em 1786, opuseram-se a novos impostos em 
nome da lei do rei Olavo.53
A resposta tradicionalista transforma-se gradualmente numa mais radical. Em 1675, alguns camponeses bretes rebelados exigiram ordonnances nouvelles. Nem todas as 
reivindicaes dos camponeses alemes em 1525 eram tradicionalistas, e nem todas vinham respaldadas na inovao de antigos costumes. Alguns exigiam a abolio da 
servido, porque "Deus criou a todos livres" ou porque Cristo redimira toda a humanidade. Michael Gaismair, que liderou o levante no Tirol, tinha a noo de uma 
"igualdade completa na terra" (ain ganze Glaichait im Lande). Stenka Razin declarou que todos os homens seriam iguais. Se isso  um retorno ao passado, no  ao 
passado recente, mas a uma idade de ouro primitiva.

When Adam delved and Eve span,
Who was then thegentieman?54
(Quando Ado cavava e Eva fiava, / Onde ento o fidalgo estava?)

Essa atitude transforma-se gradualmente na milenarista. Hans Bhm, "o tambor de Niklashausen" que pregava na rea de Wrzburg nos anos 1470, anunciou que estava 
prximo um reinado em que no existiriam impostos, arrendamentos ou servios, e todos seriam iguais. "Chegar o tempo em que os prncipes e senhores trabalharo 
para o seu po de cada dia." Em 1525, Thomas Mnzer pregou uma utopia parecida para os camponeses e mineiros da Turngia. Em Mnster, em 1534, os anabatistas anunciaram 
uma ordem nova onde "tudo seria comum, no haveria propriedade privada e ningum mais precisaria trabalhar, mas simplesmente confiar em Deus". O milnio viria milagrosamente, 
pg.199 por interveno divina, independente de esforos humanos, como o carregamento trazido pelo homem branco nos cultos modernos da "carga", a fortuna de Fortunatus 
ou a imagem, bastante conhecida no sculo XVI, das terras da Cocanha, onde porcos assados, j com a faca no lombo, ofereciam-se prontos para comer. Voltamos a uma 
resposta fatalista, agora otmista.55
Nesse espectro de opinies, podemos encontrar vises radicais e vises ativistas, mas raramente as duas se combinavam. Um diarista rural no Essex elisabetano certa 
vez perguntou: "O que os ricos podero fazer contra os pobres, se os pobres se levantarem e se unirem?"Raramente o fizeram. Faltava em larga medida uma conscincia 
de classe ou uma "solidariedade horizontal". A "solidariedade vertical" entre mestre e empregado, patrono e cliente, senhor rural e arrendatrio muitas vezes operava 
contra esses laos horizontais. Nas cidades,a lealdade ao ofcio (mestres e oficiais) contra outros ofcios e outras cidades operava contra a conscincia de classe. 
No campo, contra ela operava a lealdade  aldeia; era difcil convencer os camponeses a cooperar com os de fora, a includos outros camponeses.
Essa atitude de desconfiana em relao a todos que estivessem alm de um pequeno crculo de parentes e amigos vinha acompanhada de uma viso do mundo (no incomum 
nas sociedades tradicionais) como um lugar de "bens limitados", onde ningum pode prosperar a no ser s custas de outrem. (Numa sociedade que no desfruta de um 
crescimento econmico,  evidente que essa idia tem uma certa plausibilidade.) Da resultava a generalizao da inveja, do "mau olhado" e do medo  inveja. Da 
a crena de que as bruxas tinham o poder de fazer com que suas vacas dessem mais leite, tirando por meios sobrenaturais o leite das vacas dos seus vizinhos. Existiam 
frmulas mgicas para proteger os animais da herdade, dirigindo o mal para os animais dos outros.  como se as pessoas acreditassem que o sistema no podia se transformar, 
mudando apenas as posies relativas das pessoas dentro dele, o que se mostra da maneira mais espetacular na imagem popular do "mundo de cabea para baixo" (adiante, 
p. 210).                   NoVivarais, em 1670, alguns camponeses rebelados declararam que agora era a vez de os fidalgos se tornarem seus criados.56
            uma espcie de pobreza da imaginao, uma incapacidade de conceber mundos sociais alternativos, certamente resultado de horizontes estreitos e uma experincia 
social limitada. Em 1944, um estudo sobre aldees turcos revelou que eles no conseguiam imaginar uma soma de dinheiro superior a 5 mil dlares. Da mesma forma, 
quando perguntam a Misre o que ele mais deseja, ele no pensa em terras ou pg.200 mais rvores, mas simplesmente em maior segurana para a nica rvore que possui. 
No mundo do conto popular, ele estava certo; evitou o castigo que recaiu sobre o pescador e sua mulher (Grimm, n 19), que pediram demais, irritaram seu protetor 
sobrenatural e perderam tudo o que tinham ganho. Existe um provrbio russo que diz "sorte demais  perigoso".57 Talvez no fosse incapacidade por parte do povo, 
mas falta de disposio em imaginar outros modos de vida. Eles tinham medo. 
             Tinham boas razes para sentir medo, visto a taxa de mortalidade e os perigos da guerra, da fome e da peste. Uma insegurana subjacente muitas vezes 
aflora nos provrbios. Fora da famlia, do lar e da aldeia, o mundo  hostil. "H trs coisas em que no se pode confiar: o rei, o tempo e o mar." "Amigos e mulos 
sempre faltam quando se precisa deles." 'Tanto o pote vai  gua que se quebra." Muitos rituais e smbolos da cultura popular parecem ter sido protees contra o 
perigo. Era esta a funo de diversos santos, principalmente "os catorze salvadores na necessidade" (die Vierzehn Nothelfer), que se difundiram a partir da Alemanha 
no sculo XV. So Jorge protegia as pessoas da guerra, so Sebastio da peste, santa Margarete dos problemas de parto, e assim por diante. Outros heris populares 
eram vistos a uma luz semelhante; guerreiros ou soldados pintados nos armrios funcionavam como guardies. A insegurana acompanha a tradio, pois "mais vale o 
certo do que o duvidoso", ou pelo menos  mais garantido.58
Era perigoso abandonar as trilhas batidas da tradio, e no entanto a ordem social existente, com suas injustias e privaes, engendrava frustraes em escala macia. 
O povo precisava de figuras de dio como bruxas, turcos e judeus, precisava transferir para os forasteiros as hostilidades geradas por tenses dentro da comunidade.. 
Precisava de ocasies peridicas para expressar essas hostilidades, aliviar essas tenses. Tais ocasies so o tema do prximo captulo.pg.201
